quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Ciência

Inpa pesquisa alternativa para resíduo de peixe jogado nos rios



O que acontece com o resíduo do peixe não utilizado na indústria alimentícia? Na época da safra, no Amazonas, estima-se que em torno de três toneladas de pele de peixe são jogadas nos rios por dia. Embora seja um material degradável, quando lançado em enorme quantidade, causa danos ao meio ambiente e desequilibra o ecossistema. Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) estão voltados para esta questão em busca de alternativas.


A engenheira de pesca Karina de Melo desenvolveu uma pesquisa pioneira na utilização de corantes vegetais da Amazônia para o tingimento do couro do peixe matrinxã, sob orientação de Jerusa de Souza Andrade e Rogério Souza de Jesus, ambos pesquisadores do Inpa. A novidade da pesquisa é a utilização de um processo vegetal para tingir o couro do peixe, em lugar dos processos minerais e sintéticos já conhecidos. Com esse novo processo, menos produtos poluentes são jogados no meio ambiente. “O tingimento com corantes vegetais, como por exemplo o urucum, é um processo antigo, que os egípcios e os índios já usavam; daí a idéia de implementar dentro de um curtimento um corante vegetal, natural, que prejudicasse menos o meio ambiente”, diz Melo.
Apesar disso, o procedimento de pesquisa foi realizado em laboratório e não contou com a participação das comunidades locais. Dentre as amostras de plantas que a pesquisadora selecionou, foram escolhidas as que tinham maior concentração de corante, e que fossem mais solúveis em água, resultando no cacauí, de cor azulada/violeta, e no crajiru, de coloração avermelhada.



Experimentos com três tonalidades de couro tingido: 5, 10 e 15% de corante utilizado - crajiru (esq) e cacauí (dir).
Foto: Natacha Veruska


Melo acrescenta que o objetivo da pesquisa foi utilizar uma matéria-prima não comestível. “Os corantes vegetais que existiam - diz ela - eram os utilizados em alimentos, como o urucum e o açafrão. Na literatura pesquisada não há nenhum tipo de corante que não seja comestível; minha idéia era justamente gerar um corante que também fosse resíduo, ou seja, não-comestível”.
A pesquisa realizada por Melo faz parte de uma série de pesquisas do Inpa que estão relacionadas. Anteriormente, a engenheira já havia desenvolvido um estudo sobre a transformação de peles de peixes amazônicos em couro. Na ocasião, realizou o curtimento do peixe matrinxã, orientada por Rogério Souza de Jesus e José Jorge Rebello.

Rebello, técnico em Curtimento do Inpa, desenvolvia por sua vez um trabalho com o resíduo do peixe jogado nos rios do Amazonas oriundo tanto de indústrias, como do próprio local de desembarque do peixe, onde há alguns pontos de comercialização e nos quais já retiram a pele do peixe. “No caso da indústria, existe um maior aproveitamento do resíduo do peixe: a cabeça pode virar resíduo para a pesca marinha e, as vísceras, sabão ou ração para peixe”, explica Jesus, que acrescenta a diferença no caso da comercialização realizada pelos chamados “peixeiros” de Manaus. “Eles fazem a limpeza do peixe no local do desembarque e todo o resíduo, como pele, cabeça, escamas, gordura, vísceras é jogado no rio, gerando grande uma poluição no local. A pesquisa de Rebello trabalhou inicialmente com o que é chamado de “pele de peixe liso” e, mais recentemente, com os pescados oriundos da piscicultura, como o matrinxã e o tambaqui. A pesquisa do tingimento do couro de peixe faz parte deste projeto e dá continuidade ao trabalho realizado para o curtimento do matrinxã.

Melo aponta que o couro do matrinxã não é tão resistente como o couro “de peixe liso”, mas, por ser mais macio, pode ser usado para fazer bolsas, pulseiras de relógio, acessórios e vestimentas. Já os corantes extraídos do cacauí e do crajiru podem ser utilizados também na indústria têxtil. Na São Paulo Fashion Week e na Fashion Rio da primavera/verão 2008, além dos tecidos tecnológicos, que têm propriedades como proteção contra os raios ultravioletas, ou absorção de suor, também ganharam destaque esse ano os tecidos ecológicos como o algodão orgânico, o couro vegetal, a fibra de juta, a palha, o reciclável poliéster japonês e ainda as cuecas chamadas “ecológicas”, produzidas com fibras de bambu em substituição à fibra sintética. Os eventos apontam uma nova tendência de mercado na qual o couro do matrinxã poderia ser incluído.


O processo desenvolvido por Karina está sendo protegido, de acordo com Rogério Souza de Jesus, pela Divisão de Propriedade Intelectual de Negócios do Inpa e até que os interessados em desenvolver industrialmente esse tingimento entrem em contato com o instituto, a pesquisa fica guardada. Jesus explica que a pesquisa de Karina mostrou que existe a potencialidade da utilização de corantes naturais para o tingimento de couro de matrinxã; a partir daí, quando uma empresa tiver interesse, deverá trabalhar com a pesquisadora para chegarem a um produto direcionado ao nicho de mercado que a empresa quer atingir e que possa ser comercializado.
A pesquisa de Melo foi apresentada como dissertação de Mestrado no Inpa em maio de 2007 e financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).
Fonte: INPA

4 comentários:

Lucas Conrado disse...

É muito bom usar corantes naturais ao invés dos artificais, que são poluentes.
Mas, fiquei com uma dúvida. Se os naturais forem usados em grande escala, não pode levar à planta o perigo da extinção?

Gostei do seu blog. É bom ver que ainda existem pessoas preocupadas com o meio ambiente...

http://lucasconrado.blogspot.com/

MH disse...

Bem interessante essa materia. Mas gostei mais ainda da historia das 11 novas especies.

CapinaremosRH@gmail.com (Zanfa) disse...

Muito bom ver que ainda existem pessoas que protejam o meio ambiente. =D

Será que restos de peixes não dariam um bom adubo? x.x

Renata Emy disse...

Boa noite Ricardo!

E ai? Está de malas prontas?

Olha não esqueça de tirar mts fotos e me mostrar ok?

Beijos