sábado, 14 de junho de 2008

Invasões biológicas de peixes: um assunto urgente

Espécies exóticas são aquelas que se encontram fora de sua área de distribuição natural (Convenção de Diversidade Biológica, Decisão VI/23), por ações antrópicas diretas ou indiretas. Em ambientes aquáticos são mais comumente denominadas alóctones. O processo de introdução não ocorre necessariamente atravessando fronteiras políticas, mas sim de um bioma para outro dentro de um mesmo país e no caso específico de peixes de água doce, entre bacias ou subbacias hidrográficas.Além disso, ao considerar aspectos como o isolamento reprodutivo das populações e a integridade de seu patrimônio genético, mesmo os “repovoamentos” (reintroduções de organismos considerados nativos) devem ser realizados com cautela (Vitule , 2006).

Poecilia reticulata
Espécies exóticas se tornam invasoras quando representam uma ameaça a outras espécies, hábitats ou ecossistemas (Convenção de Diversidade Biológica, Decisão VI/23). Erradicar uma espécie exótica é possível, mas somente sob algumas circunstâncias e com resultados potencialmente imprevisíveis (Myers, 2000), especialmente quando se trata do meio aquático. A principal causa de introdução de espécies exóticas de peixes no Brasil é a piscicultura (Agostinho & Julio Jr.,1996; Orsi & Agostinho, 1999; Bizerril & Primo, 2001; Agostinho, 2005; Vitule, 2006; Casal, 2006), causa esta intensificada pela demanda indiscriminada dessa mercadoria, pela deficiência de mecanismos de registro, segurança e fiscalização nos criatórios e pesque-pagues. Outras causas de introdução são fins ornamentais, aquacultura (por rompimento de barreiras, rios e alagamentos), pesca desportiva e programas de “peixamentos” ou “repovoamentos”, que promovem ações de soltura de peixes exóticos em ambientes naturais ou artificiais.
Trichogaster trichopterus
As conseqüências de espécies exóticas invasoras nos ambientes invadidos incluem alteração do hábitat e da estrutura das comunidades naturais, introdução de doenças e/ou parasitas, hibridização e comprometimento da identidade genética das populações nativas, alterações tróficas, extinção de espécies nativas e principalmente perda de biodiversidade natural (Vitule, 2006). Entre os vertebrados, as introduções de espécies de peixes de água doce têm estado entre as causas mais numerosas e as espécies endêmicas de peixes estão entre as mais vulneráveis a estes eventos em todo o mundo, tendo como resultado sua extinção ou redução significativa em número (Crivelli, 1995).
Betta splendens
Na tabela a seguir apresenta-se uma lista de espécies exóticas invasoras de peixes no Brasil. As mais comuns encontram-se em destaque.


Nome Científico
Nome Comum
Abramites hypselonotus
piau-pedra e piau-tambaqui
Acanthurus monroviae
african surgeonfish, Monrovia doctorfish ou cirurgião
Aristichthys nobilis
carpa-cabeça-grande, bighead carp, amour à grosse tête, amour marbré, carpa cabeza grande, carpa cabezona ou marmorkarpfen
Astronotus crassipinnis
apaiari ou acará-açu
Astronotus ocellatus
apaiari ou acará-açu
Betta splendens
beta ou siamese fighting fish
Butis koilomatodon
durmiente e mud sleeper
Carassius auratus
peixinho-dourado, kinguio ou goldfish
Cichla monoculus
Tucunaré
Cichla ocellaris
tucunaré, peacock-bass, peacock-cichlid ou pavón
Clarias gariepinus
Bagre-africano, catfish, walking fish ou african catfish
Colossoma macropomum
tambaqui, cachama negra, pacu, gamitana, black-finned colossoma ou black-finned pacu
Ctenopharyngodon idella
carpa-capim, silver orfe ou grass carp
Cynopotamus kincaidi
saicanga, dientudo ou dentudo
Cyprinus carpio
carpa-comum
Hoplias lacerdae
tariputanga, trairaçu, trairão ou tararira
Hoplosternum littorale
cascudo, camboatá, hassar ou tamoatá
Ictalurus punctatus
bagre-do-canal
Lepomis gibbosus
perca-sol ou pumpkinseed sunfish
Micropterus salmoides
achigã, largemouth bass ou black bass
Odontesthes bonariensis
peixe-rei ou pejerrey
Omobranchus punctatus
muzzled blenny
Oncorhynchus mykiss
truta-arco-íris ou rainbow trout
Oreochromis macrochir
tilápia, longfin tilapia ou cachama
Oreochromis mossambicus
tilápia, mozambique-tilapia, mozambique-mouthbrooder, mosambik-maulbrüter
Oreochromis niloticus
tilápia-do-nilo, tilápia, nile tilapia ou nile-mouthbrooder
Oreochromis sp.
Tilápia
Pachyurus bonariensis
corvina de río, corvina ou maria-luiza
Phalloceros caudimaculatus
madrecita, dusky millions fish ou spottail mosquitofish
Phallotorynus victorae
barrigudinho, guaru, madrecita ou piky
Piaractus mesopotamicus
pacu caranha ou pacu
Plagioscion squamosissimus
pescada-do-piauí, corvina, south american silver croaker ou pescada-branca
Poecilia reticulata
guppy, lebistes, mexicano, gupi, rainbowfish, barrigudinho ou barrigudinho-mexicano
Prochilodus lineatus
sábalo, corimbatá, curimba, curimbatá, grumatã, carimbatá ou lamepiedras
Pygocentrus nattereri
piranha-vermelha, piranha-caju ou red pirana
Tetragonopterus argenteus
Sauá
Tilapia rendalli
tilápia, redbreast tilapia ou tilapia herbívora
Trachelyopterus lucenai
porrudo ou peñarol
Trichogaster trichopterus
tricogaster-azul, three spot gourami, opaline gourami, tricogaster, golden gourami, marbled gourami ou gourami
Embora espécies exóticas invasoras sejam um problema antigo e que a ciência das invasões biológicas tenha sido cunhada em 1958 por Charles Elton, com o livro , o tema é recente no Brasil e carece de atenção. Somente quando essas espécies deixaram de ser apenas um problema ambiental e passaram a ser pragas agrícolas, epidemias e também problemas econômicos expressivos é que estudos nessa área começaram a ser feitos (McNeely, 2001). Nos Estados Unidos, os prejuízos causados por espécies invasoras já chegam a 320 bilhões de dólares por ano (Pimentel , 2005). Algumas pesquisas científicas sobre espécies exóticas invasoras têm sido feitas no Brasil, em geral com foco em apenas algumas espécies. A principal iniciativa tomada até agora foi a formação de um banco de dados nacional para espécies exóticas invasoras, realizado pelo Instituto Hórus e The Nature Conservancy, em acordo com o Ministério do Meio Ambiente e parcerias de cientistas e técnicos em todo o Brasil. O banco de dados contém informação sobre taxonomia e características das espécies, porém o mais importante é o registro das espécies em si de sua ocorrência no país em termos políticos e ambientais. Essa iniciativa é fundamental para embasar tomadas de decisão governamentais no tocante a programas de prevenção e controle, de políticas públicas, regulamentação legal, divulgação, capacitação técnica e informação pública.
Cyprinus carpio
Um dos fatores que leva à dispersão de espécies exóticas invasoras é a falta de conhecimento e informação das pessoas. Trabalhos realizados nessa área precisam ser divulgados ao público em geral, não somente ao meio científico. Como exemplo da falta de informação, o estado do Paraná criou em 2007 uma portaria que institui uma lista oficial de espécies exóticas invasoras. Ao contrário do que muitas pessoas acharam, essa lista oficial não tem caráter proibitivo, mas sim de referência, sendo o objetivo maior indicar a necessidade de cuidados no uso das espécies listadas e a compreensão de que são espécies de alto risco. Entre as lacunas que criam dificuldades para se trabalhar nessa área estão a falta de registros científicos e a falta generalizada de conhecimento sobre espécies exóticas invasoras e seus impactos sobre ecossistemas naturais e a diversidade biológica.
Oncorhynchus mykiss
O que você pode fazer?
  1. Colete exemplares de espécies exóticas e crie registros para elas em instituições científicas e coleções de museus.
  2. Contribua com dados de ocorrência de espécies exóticas invasoras para a base de dados nacional de espécies exóticas invasoras através do correio eletrônico invasoras@institutohorus.org.br (local, município, ambiente, seus dados e outras informações de que dispuser).
  3. Ajude a informar as pessoas em todos os meios sobre os riscos e impactos da translocação de espécies entre bacias.
  4. Ajude a informar as pessoas sobre a necessidade de segurança nos criadouros de peixes para evitar escapes a ambientes aquáticos naturais.
  5. Direcione parte da pesquisa que você faz à resolução de problemas de invasão biológica.
  6. Direcione parte da pesquisa que você faz à definição de métodos de criação de espécies nativas para o desenvolvimento de mercados sustentáveis no futuro.
  7. Inclua o tema nas suas disciplinas para formarem profissionais mais conscientes e responsáveis.
  8. Dê apoio à formulação de políticas públicas e marcos legais que possam minimizar impactos de espécies exóticas invasoras.
Oreochromis niloticus

Vale a pena consultar: ExoticFish

2 comentários:

☆ Renata Emy ☆ disse...

Ricardo querido,

Passando p/ te desejar uma ótima semana!

Bjooo

danielasilvasoares disse...

genteee a dias que pesquiso sobre o assunto . pois estou desenvolvendo um projeto sovre tal, e achei o maximo, td que eu queria ....vlw!s